RESENHA SOBRE O FILME “Hamnet: a vida antes de Hamlet”, de Choloé Zhao (por Flávia Suassuna)

Flávia Suassuna • 10 de julho de 2026

No início desta semana, um aluno me sequestrou para que eu assistisse ao filme “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Ele me levou ao cinema e pagou minha entrada, insistindo que eu precisava ver o filme e escrever um comentário. A obra, dirigida por Chloé Zhao, é uma adaptação do livro de Maggie O'Farrell e é realmente muito bonita e perfeita para mim.

         No começo desta semana, fui sequestrada por um aluno que queria porque queria que eu assistisse ao filme “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Ele me levou ao cinema e, inclusive, como o lorde inglês que sempre costuma ser, pagou a minha entrada. De acordo com ele, eu precisava, urgente e obrigatoriamente, ver o filme o qual era a minha cara e, em seguida, escrever um comentário.

O filme da diretora chinesa Choloé Zhao é uma adaptação do livro homônimo da norte-irlandesa Maggie O'Farrell. É muito bonito e é a minha cara mesmo. 


               Tenho um livro inteiro de resenhas de livros e filmes, mas confesso que não sei falar de enquadramentos, cortes, ritmo... – os elementos específicos do cinema – mas somente da história propriamente dita, porque fui formada pela literatura. Em minha defesa, posso afirmar que nem em relação aos livros, nem aos filmes me importo com o que agora chamam “spoilers”, porque tenho curiosidade de saber o que chama a atenção das pessoas que leram o livro ou viram o filme. 

E gosto muitíssimo de comparar o que foi visto com o que eu mesma vi, para aprender sobre a pessoa que falou ou sobre mim mesma. Talvez isso tudo já estivesse intuído ou ligado, sem eu saber, com a ideia recente que me veio à cabeça das “palavras em movimento”: uma pessoa fala, outra retruca... E assim, sucessivamente, vamos, com palavras, serenando a violência entre nós. 


         Não quero com isso dizer que estaremos, num futuro próximo ou distante, curados para sempre da violência, que ela é uma espécie de DNA tatuado na nossa mais profunda essência. Mas quero defender a tese de que nossas ficções (e as consequentes leituras, apreciações, críticas, comentários, opiniões, resenhas, trabalhos acadêmicos...) movimentam diálogos com os quais nos interferimos e, portanto, amadurecemos e evoluímos, se é que sabemos fazer isso. 


O verbo “interferir”, recentemente percebi, é perfeito para ser usado nesse contexto, pois carrega dois significados: cada um de nós interfere na vida e na visão do mundo do outro, mas, ao mesmo tempo, dada a nossa natureza, nos ferimos nessa troca que é atávica e inescapável. 

O filme é sobre o luto. Acho que quem não gostou dele não transferiu algo de si ou não pôde transferir algo de si para a situação de espectação (essa palavra – com “s” – não existe dicionarizada, mas acabo de precisar dela; refere-se ao substantivo de quem assiste a um espetáculo, o espectador; com “x” essa palavra significa aquele que está na expectativa de). Não ter uma experiência de luto é muito raro, já que todo ser humano, mais dia, menos dia, encontra-se com este tema dos mais difíceis e complexos de nossa trajetória histórica.


         Eu mesma, aos quarenta e poucos anos, fui atropelada por um luto complexo e cheio de camadas: perdi um filho saudável que, depois de uma meningoencefalite, carrega até hoje pesadas deficiências motoras. Em outras palavras: eu perdi e não perdi um filho ou estou num ponto da história da medicina que pôde salvar meu filho, mas não por inteiro ou fui sorteada com um milagre inconcluso... Francamente, não tenho as palavras exatas, mesmo despois de vinte e cinco anos, para falar desse luto. Em resumo: digo que tive quatro filhos e perdi um, apesar de sentir que a frase não traduz direito o que se passou.   

Não sei se o luto da perda de um filho tinha, no final do século XVI (época em que o filme se desenrola), o peso que tem hoje: os iluministas do final do século XVIII que, de acordo com eles mesmos, eram iluminados, abandonaram aos montes seus filhos à morte ou à dificílima tarefa de viverem como bastardos e, na Rússia do final do século XIX, Tolstói me disse que as crianças morriam tanto, que só eram registradas com sete anos. Nossas ancestrais falavam de seus filhos mortos com mais naturalidade, elas diziam “tive 15 filhos, criei 10” como quem relata um acontecimento que era corriqueiro. E cujo luto precisava ser logo cumprido, pois era seguido por outra gravidez e suas dificuldades.

 

            Mas o livro que não li ainda e o filme são da década de 20 do século XXI, quando as pessoas têm um ou dois filhos e só muito tardiamente perdem pai e mãe, às vezes depois de terem se transformado em pais ou mães de seus próprios pais e mães... Ou seja: é preciso imaginar a experiência de perder o único filho ou um dos poucos filhos sem ter passado por nenhuma experiência de perda profunda antes. É sobre isto: a perda fundante, a que funda outra pessoa. 

Quando se ficava órfão criança ou adolescente no século XVIII ou XIX, por exemplo, toda vida seguia outro destino e tinha que se estruturar, a pulso, uma outra pessoa – venda dos mais vulneráveis, orfanatos, abrigos, internatos, trabalho infantil, maus tratos, situações análogas à escravidão, casamentos arranjados noutro continente, toda sorte de violência já foi mencionada e elaborada com palavras, como efeito desse luto. Foi o que fez Charles Dickens, na Inglaterra (o país mais rico do mundo na época). 



         Mas isso tudo passou para a maioria das pessoas, embora ainda deva existir nos rincões de pobreza mundo afora onde, infelizmente, consentimos existir pobreza dentro da riqueza que já obtivemos no planeta. 

No nosso tempo, o luto fundante é o do filho, e o filme em tela é sobre esse luto – sobre um casal que perde uma espécie de filho único, o único homem, pois havia duas filhas – uma mais velha e outra “nascida na mesma hora”, como o próprio autor fundante inglês chamou os gêmeos. É preciso reparar que existem palavras para outros lutos (quem perde os pais é órfão; quem perde o companheiro ou companheira é viúva ou viúvo). Mas nosso tempo ainda não nomeou nem o luto do filho, nem do irmão, como é sussurrado no filme. 

Sim, o filme é sobre William Shakespeare, sua mais famosa peça teatral, “Hamlet”, seu filho Hamnet (as duas versões do nome próprio corriam na época) e sua esposa Ana ou Agnes, também duas possibilidades correntes quando a língua inglesa estava no berço e foi quase que fundada ou fortalecida pelo escritor. Acho que posso acrescentar que a linguagem e o humano estavam sendo criados e/ou reescritos e/ou refundados e/ou reestruturados, naquele momento de profundas mudanças... Não estou bem certa... Ou errada... 


     No presente, outro tempo de avassaladoras mudanças, parece que precisamos voltar a esse passado para tirar lições para seguirmos... É que viver é feito dirigir bem: temos de olhar para frente por um vidro que é o maior de todos, na companhia dos outros, confiando nas suas prudências e antevendo e enfrentando as suas imprudências. Mas, eventualmente, precisamos olhar para trás, por espelhinhos à direita e à esquerda, para que escapemos de acidentes; o ponto cego, que existe, apesar dos retrovisores, é a morte – não precisamos focar nela, só saber que existe, a fim de saber o que é essencial. 

Agnes, a personagem principal, simboliza a natureza e os saberes intuitivos e meio medievais que estavam, naquele tempo, começando a ser insuficientes para entender e explicar o mundo: somos apresentados a ela numa floresta, seu primeiro parto foi na floresta, ela conhece as pessoas pelo tato e entrega-se ao sexo de forma natural; ela era considerada ora órfã, ora filha de uma bruxa da floresta. Tinha uma visão recorrente de que ia morrer ao lado de dois filhos. E, por isso, sempre teme a morte da filha que quase morre durante o parto duplo. Como o filme se dá num momento de transição, começamos, aos poucos, sendo apresentados ao fato de que o jeito de Agnes já não dá conta de explicações: o segundo parto muito cansativo a teria levado se estivesse sem ajuda na floresta. 



          A natureza e os saberes populares começam a falhar naquele alvorecer da Idade Moderna começando a ser urbana, e testemunhamos suas intuições naufragarem – não foi sua filha que nasceu quase morta e parecia fraca (parece ser por causa dela que a mãe não acompanha o seu marido que trabalhava em Londres, uma cidade mais populosa e, portanto, mais perigosa) que morreu, mas seu irmão; sua força ligada à natureza e suas ervas não salvaram seu filho... E ela errou quando não considerou outros modos de viver – não naturais, mas racionais e intelectuais.

O fim do filme é belo, porque a experiência empírica da arte e do teatro, e seus mecanismos materiais e imateriais, ajudam Agnes, por meio das palavras, a ter uma visão mais completa: ela se abre à vivência diferente do luto do seu marido, naquela cena primordial do lindo teatro Globe... Agnes deixa seus saberes intuitivos serem atravessados pela razão e pela intelecção e ganha uma compreensão mais justa e completa do outro. E do mundo. Tudo isso num tempo em que a subjetivação estava engatinhando, filha do rearranjo dos novos sentidos que precisaram surgir... 


              Obrigada, Choloé, Maggie e Emanuel. Pensar sobre a vida, as palavras, os silêncios e sobre como, noutro tempo, o amor e a arte (com suas sugestões simbólicas e suas brechas) ajudaram a organizar o caos e preencher o vazio, criando novos caminhos, novos sentidos, novas palavras e, portanto, novas compreensões, me ajuda a não desistir de bucar novos sentidos, caminhos e palavras neste labirinto em que estamos, ameaçado por novas e ainda inexplicáveis inteligências. 


A Emanuel Sarinho, a quem prometi a resenha.

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