A INVISIBILIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL: SOB A LUZ DO SANFONEIRO BETO HOSTIS E A AUSÊNCIA DE RECONHECIMENTO CULTURAL EM CAMARAGIBE/PE

Dayvton Almeida • 6 de abril de 2026

Dayvton Almeida

A INVISIBILIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL: SOB A LUZ DO SANFONEIRO BETO HOSTIS E A AUSÊNCIA DE RECONHECIMENTO CULTURAL EM CAMARAGIBE/PE

 

AUTORA: Letícia Ferreira

 

Este artigo analisa a contradição entre a riqueza cultural de cidades nordestinas e a ausência de valorização de seus próprios agentes culturais , tomando como estudo de caso o sanfoneiro Beto hortis. Sua trajetória evidencia formação tradicional, aperfeiçoamento com referência nacional e continuidade geracional da cultura por meio de suas filhas Thaíssa Roberta e Maria Júlia, Apesar disso, observa-se uma lacuna significativa no reconhecimento institucional e social em sua cidade de origem, Camaragibe. O estudo discute fatores históricos, políticos e socioculturais que contribuem para essa invisibilização, destacando a urgência de políticas públicas voltadas à valorização da cultura popular.

 

Palavra - Chave: cultura popular; identidade cultural; invisibilidade social; políticas públicas; forró tradicional. 

 

1 - Introdução

 

A cultura popular nordestina constitui um dos pilares da identidade brasileira, sendo a sanfona um de seus principais símbolos. No entanto, é recorrente a existência de artistas que, embora representem suas cidades em diversos espaços culturais, não recebem o devido reconhecimento em seus próprios territórios.

 

Neste contexto, o presente artigo investiga a trajetória de Beto Hortis, natural de Camaragibe, cuja atuação artística contrasta com a limitada valorização local. A problemática central que orienta esse estudo é: porque cidades culturalmente ricas não reconhecem adequadamente seus próprios representantes culturais?  

 

2 - Formação artística e raízes culturais

 

A formação de Beto Hortis está diretamente ligada às tradições locais. Seu primeiro contato com a sanfona ocorreu sob a orientação do Sr. Bibiu, figura de relevância na construção cultural do município e responsável por introduzi-lo no universo musical.

 

Posteriormente, seu aperfeiçoamento artístico foi influenciado por Dominguinhos, referência nacional da sanfona e do forró tradicional.

Essa trajetória revela um percurso que transita entre o saber popular e a legitimação artística no cenário mais amplo da música nordestina.

3 - Continuidade geracional e preservação da cultura

 

Um dos aspectos mais relevantes da trajetória de Beto Hortis é a continuidade da tradição cultural por meio de sua própria família. O artista formou uma banda de forró tradicional com suas duas filhas,Taíssa Roberta e Maria Júlia, ambas nascidas e criadas em Camaragibe, que se destacam por sua qualidade vocal e presença artística perfeita.

 

Esse processo de transmissão intergeracional reforça o papel da família como núcleo de preservação cultural, garantindo a permanência e renovação das manifestações populares. Trata-se não apenas de continuidade artística, mas de resistência cultural em contexto de invisibilização.

 

4 - A contradição: reconhecimento externo versus invisibilidade local

 

Apesar de sua trajetória consolidada e da contribuição para difusão do nome de Camaragibe, Beto Hortis enfrenta a ausência de reconhecimento proporcional em seu próprio município.

 

Essa contradição revela um problema estrutural presente em diversas cidades brasileiras, marcado por:

 

●    Fragilidade das políticas públicas culturais;

●    Ausência de incentivo a artistas locais;

●    Desvalorização da cultura popular frente a padrões culturais hegemônicos;

●    Desconexão entre o poder público e agentes culturais comunitários.

 

A invisibilidade local, nesse contexto, não decorre da falta de mérito, mas de falhas institucionais e sociais.

 

5 - Cultura, identidade e pertencimento

 

A valorização de artistas locais está diretamente ligada à construção da identidade coletiva. Quando um artista com a grandeza de Beto Hortis, não é reconhecido como deveria ser, há um enfraquecimento do sentimento de pertencimento da própria comunidade.

 

A cidade deixa de se reconhecer em seus representantes, comprometendo sua memória histórica e cultural. A cultura, portanto, deve ser compreendida como um direito social e um instrumento de afirmação identitária.

 

A ausência de valorização de artistas locais, como Beto Hortis, não afeta apenas o reconhecimento individual, mas produz um efeito mais amplo e silencioso: a perda progressiva da cultura por parte dos próprios munícipes de Camaragibe.

Esse processo ocorre quando a população deixa de se reconhecer em suas manifestações culturais, passando a consumir predominantemente referências externas, muitas vezes dissociadas de sua realidade histórica e social. A cultura local que deveria ser elemento de identificação e pertencimento, torna-se invisível no cotidiano da própria comunidade.

 

6 - O papel do poder público e a negligência cultural

 

A fragilidade das políticas públicas culturais nos âmbitos municipais. Em muitos casos, há falta de planejamento, investimento e continuidade em ações voltadas à valorização da cultura local. A cultura passa a ser tratada como evento pontual, e não como política estruturante de identidade e desenvolvimento social. 

 

O reconhecimento institucional é fundamental para a valorização da cultura local . A ausência de apoio, visibilidade e incentivo não apenas marginaliza artistas, mas também compromete a continuidade das tradições culturais.

 

No caso analisado, mesmo diante de uma trajetória que envolve formação tradicional, aperfeiçoamento com referência nacional e continuidade familiar, observa-se uma lacuna significativa no reconhecimento por parte de estruturas públicas.

 

Essa realidade evidencia a necessidade urgente de revisão políticas culturais,com foco na valorização dos agentes locais.

 

7 - Considerações finais

 

A trajetória de Beto Hortis revela uma realidade que ultrapassa o caso individual e reflete uma problemática estrutural no Brasil: a invisibilidade de artistas locais em seus próprios territórios.

 

Mesmo reunindo elementos fundamentais como tradição, legitimidade artística, contribuição cultural e continuidade geracional, o reconhecimento permanece insuficiente. Isso demonstra que a valorização cultural não ocorre de forma espontânea, mas depende de políticas públicas eficazes e de uma mudança na percepção social sobre a cultura popular.

 

Valorizar artistas locais é, sobretudo, valorizar a própria história, identidade e memória coletiva de Camaragibe.

 

Referências 

 

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade.

 

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.

 

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional.

 

SILVA, Tomaz Tadeu da. identidade e diferença.


Compartilhar

Author Leticia Ferreira next to an owl logo for
Por Dayvton Almeida 6 de abril de 2026
COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA, INVISIBILIDADE DAS VÍTIMAS E DEMOCRACIA: QUANDO A MÍDIA DE BAIRRO SE TORNA ESPAÇO DE JUSTIÇA SOCIAL.
A promotional poster for the book
Por Dayvton Almeida 4 de abril de 2026
A Editora Ser Poeta, em parceria com o LABSEL/UFPE, lança o livro "Jardim das Estrelas", de Camila Faria de Almeida. Sétimo volume da Coleção Luto com Ciência, a obra une rigor acadêmico e sensibilidade para oferecer um guia lúdico e prático sobre como comunicar a morte às crianças, transformando o luto em um processo
Book launch flyer for
Por Dayvton Almeida 3 de abril de 2026
Da infância humilde ao impacto global: Paulo José Barbosa lança 'Um Menino Chamado Paulo, Um Homem Sem Fronteiras'. Uma obra que prova como o voluntariado é o fio invisível que costura corações e transforma realidades no Recife e no mundo
Com uma trajetória sólida e ancestral, a escritora da etnia Rom (Grupo Kalderash)
Por Dayvton Almeida 2 de abril de 2026
Com uma trajetória sólida e ancestral, a escritora da etnia Rom (Grupo Kalderash) une a sabedoria dos oráculos à potência literária em sua nova obra.
abuti 68: CBL abre inscrições e Editora Ser Poeta inicia submissões
A maior premiação literária
Por Dayvton Almeida 2 de abril de 2026
abuti 68: CBL abre inscrições e Editora Ser Poeta inicia submissões A maior premiação literária do país já recebe inscrições! Sob a gestão de Dayvton Almeida, a Ser Poeta sai na frente garantindo a presença de seus autores de 2025 na disputa pela estatueta. Confira os prazos e as primeiras obras inscritas.
DENÚNCIA FALSA NO CONTEXTO DA LEI MARIA DA PENHA E A VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA FAMILIAR ESTUDO DE CASO
Por Dayvton Almeida 31 de março de 2026
DENÚNCIA FALSA NO CONTEXTO DA LEI MARIA DA PENHA E A VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA FAMILIAR ESTUDO DE CASO DOCUMENTADO NA OBRA O CRIME DO INQUÉRITO POLICIAL AO TRIBUNAL DO JÚRI
Gilcineide Sousa celebra trajetória literária com lançamento de
Por Dayvton Almeida 30 de março de 2026
Gilcineide Sousa celebra trajetória literária com lançamento de "Filosofando com o Poeta" na Casa da Cultura de Santarém
A MOROSIDADE DO INQUÉRITO POLICIAL AO TRIBUNAL DO JÚRI PRAZOS LEGAIS, OMISSÕES INSTITUCIONAIS
Por Dayvton Almeida 30 de março de 2026
A MOROSIDADE DO INQUÉRITO POLICIAL AO TRIBUNAL DO JÚRI PRAZOS LEGAIS, OMISSÕES INSTITUCIONAIS E IMPACTOS SOBRE AS FAMILIAS DAS VITIMAS NO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL BRASILEIRO
Show More