A INVISIBILIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL: SOB A LUZ DO SANFONEIRO BETO HOSTIS E A AUSÊNCIA DE RECONHECIMENTO CULTURAL EM CAMARAGIBE/PE
Dayvton Almeida

A INVISIBILIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL: SOB A LUZ DO SANFONEIRO BETO HOSTIS E A AUSÊNCIA DE RECONHECIMENTO CULTURAL EM CAMARAGIBE/PE
AUTORA: Letícia Ferreira
Este artigo analisa a contradição entre a riqueza cultural de cidades nordestinas e a ausência de valorização de seus próprios agentes culturais , tomando como estudo de caso o sanfoneiro Beto hortis. Sua trajetória evidencia formação tradicional, aperfeiçoamento com referência nacional e continuidade geracional da cultura por meio de suas filhas Thaíssa Roberta e Maria Júlia, Apesar disso, observa-se uma lacuna significativa no reconhecimento institucional e social em sua cidade de origem, Camaragibe. O estudo discute fatores históricos, políticos e socioculturais que contribuem para essa invisibilização, destacando a urgência de políticas públicas voltadas à valorização da cultura popular.
Palavra - Chave: cultura popular; identidade cultural; invisibilidade social; políticas públicas; forró tradicional.
1 - Introdução
A cultura popular nordestina constitui um dos pilares da identidade brasileira, sendo a sanfona um de seus principais símbolos. No entanto, é recorrente a existência de artistas que, embora representem suas cidades em diversos espaços culturais, não recebem o devido reconhecimento em seus próprios territórios.
Neste contexto, o presente artigo investiga a trajetória de Beto Hortis, natural de Camaragibe, cuja atuação artística contrasta com a limitada valorização local. A problemática central que orienta esse estudo é: porque cidades culturalmente ricas não reconhecem adequadamente seus próprios representantes culturais?
2 - Formação artística e raízes culturais
A formação de Beto Hortis está diretamente ligada às tradições locais. Seu primeiro contato com a sanfona ocorreu sob a orientação do Sr. Bibiu, figura de relevância na construção cultural do município e responsável por introduzi-lo no universo musical.
Posteriormente, seu aperfeiçoamento artístico foi influenciado por Dominguinhos, referência nacional da sanfona e do forró tradicional.
Essa trajetória revela um percurso que transita entre o saber popular e a legitimação artística no cenário mais amplo da música nordestina.
3 - Continuidade geracional e preservação da cultura
Um dos aspectos mais relevantes da trajetória de Beto Hortis é a continuidade da tradição cultural por meio de sua própria família. O artista formou uma banda de forró tradicional com suas duas filhas,Taíssa Roberta e Maria Júlia, ambas nascidas e criadas em Camaragibe, que se destacam por sua qualidade vocal e presença artística perfeita.
Esse processo de transmissão intergeracional reforça o papel da família como núcleo de preservação cultural, garantindo a permanência e renovação das manifestações populares. Trata-se não apenas de continuidade artística, mas de resistência cultural em contexto de invisibilização.
4 - A contradição: reconhecimento externo versus invisibilidade local
Apesar de sua trajetória consolidada e da contribuição para difusão do nome de Camaragibe, Beto Hortis enfrenta a ausência de reconhecimento proporcional em seu próprio município.
Essa contradição revela um problema estrutural presente em diversas cidades brasileiras, marcado por:
● Fragilidade das políticas públicas culturais;
● Ausência de incentivo a artistas locais;
● Desvalorização da cultura popular frente a padrões culturais hegemônicos;
● Desconexão entre o poder público e agentes culturais comunitários.
A invisibilidade local, nesse contexto, não decorre da falta de mérito, mas de falhas institucionais e sociais.
5 - Cultura, identidade e pertencimento
A valorização de artistas locais está diretamente ligada à construção da identidade coletiva. Quando um artista com a grandeza de Beto Hortis, não é reconhecido como deveria ser, há um enfraquecimento do sentimento de pertencimento da própria comunidade.
A cidade deixa de se reconhecer em seus representantes, comprometendo sua memória histórica e cultural. A cultura, portanto, deve ser compreendida como um direito social e um instrumento de afirmação identitária.
A ausência de valorização de artistas locais, como Beto Hortis, não afeta apenas o reconhecimento individual, mas produz um efeito mais amplo e silencioso: a perda progressiva da cultura por parte dos próprios munícipes de Camaragibe.
Esse processo ocorre quando a população deixa de se reconhecer em suas manifestações culturais, passando a consumir predominantemente referências externas, muitas vezes dissociadas de sua realidade histórica e social. A cultura local que deveria ser elemento de identificação e pertencimento, torna-se invisível no cotidiano da própria comunidade.
6 - O papel do poder público e a negligência cultural
A fragilidade das políticas públicas culturais nos âmbitos municipais. Em muitos casos, há falta de planejamento, investimento e continuidade em ações voltadas à valorização da cultura local. A cultura passa a ser tratada como evento pontual, e não como política estruturante de identidade e desenvolvimento social.
O reconhecimento institucional é fundamental para a valorização da cultura local . A ausência de apoio, visibilidade e incentivo não apenas marginaliza artistas, mas também compromete a continuidade das tradições culturais.
No caso analisado, mesmo diante de uma trajetória que envolve formação tradicional, aperfeiçoamento com referência nacional e continuidade familiar, observa-se uma lacuna significativa no reconhecimento por parte de estruturas públicas.
Essa realidade evidencia a necessidade urgente de revisão políticas culturais,com foco na valorização dos agentes locais.
7 - Considerações finais
A trajetória de Beto Hortis revela uma realidade que ultrapassa o caso individual e reflete uma problemática estrutural no Brasil: a invisibilidade de artistas locais em seus próprios territórios.
Mesmo reunindo elementos fundamentais como tradição, legitimidade artística, contribuição cultural e continuidade geracional, o reconhecimento permanece insuficiente. Isso demonstra que a valorização cultural não ocorre de forma espontânea, mas depende de políticas públicas eficazes e de uma mudança na percepção social sobre a cultura popular.
Valorizar artistas locais é, sobretudo, valorizar a própria história, identidade e memória coletiva de Camaragibe.
Referências
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional.
SILVA, Tomaz Tadeu da. identidade e diferença.
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